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A inexorável maré das bactérias resistentes

Em 1941, pela primeira vez, utilizou-se penicilina num ser humano. Na altura a penicilina existente era a naturalmente produzida pelo fungo que Alexandre Fleming tinha descoberto, purificada em laboratório, um processo moroso e pouco eficiente.

Sendo um tratamento experimental escolheu-se um doente terminal, um polícia inglês com múltiplos abcessos na face devidos a uma infeção por uma bactéria chamada Staphylococcus aureus em evolução francamente desfavorável. O facto é que o homem em 24 horas ficou sem febre, recuperou o apetite e ao quarto dia notava-se uma recuperação espantosa mas… a penicilina acabou e o doente faleceu um mês depois.

Este episódio histórico pode muito bem servir de metáfora para os nossos dias, quase oito décadas depois: podemos modificar o prognóstico das infeções bacterianas e sobreviver-lhes enquanto tivermos antibióticos eficazes.

Transpondo esta história para a atualidade, torna-se imperativo que os antibióticos sejam utilizados de forma racional por todos nós. O uso racional vai desde o momento da prescrição até à administração. Ao médico prescritor exige-se a prescrição do antibiótico correto, ao doente correto, durante o tempo correto. Ao doente exige-se a toma correta do antibiótico, cumprindo rigorosamente as indicações do médico prescritor.

A interrupção do tratamento antes do previsto e sem indicação médica, pode prejudicar gravemente a sua saúde e a saúde dos que o rodeiam. Os antibióticos são usados para tratar infeções por bactérias. Sempre que um antibiótico é incorretamente utilizado, as bactérias vão sobrevivendo e criando resistências ao mecanismo de ação desse mesmo antibiótico. Deste modo, da próxima vez que tentarmos usar o mesmo antibiótico contra a mesma bactéria, estas já vão estar preparadas para se defender e o antibiótico pode não fazer efeito. Nesse caso, haverá necessidade de mudar de antibiótico e assim sucessivamente até não existirem mais opções de tratamento.

A problemática da resistência aos antibióticos é tão importante e preocupante, que a 18 de novembro de 2008 a União Europeia numa iniciativa no domínio da área da saúde, instituiu o Dia Europeu do Antibiótico, da responsabilidade do Centro Europeu para a Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC).

Posteriormente, a Organização Mundial de Saúde (OMS), tomou a iniciativa de assinalar a Semana Mundial do Antibióticos, que este ano decorre entre 18 e 22 de novembro, com o lema “O futuro dos antibióticos depende de todos nós”.

Este ano, em Portugal, a Direção-Geral da Saúde seguindo as diretivas europeias, está a abordar este tema de uma forma mais alargada e abrangente num conceito de “Uma só Saúde”, trabalhando em conjunto com a Direção Geral de Alimentação e Veterinária e com a Agência Portuguesa do Ambiente, pois a resistência aos antibióticos afeta não só a saúde humana e animal, mas também o ambiente e a produção alimentar.

Portugal está ainda abaixo da média europeia, no que se refere ao consumo de antibióticos, no entanto, mais de 50% dos portugueses pensam que os antibióticos atuam sobre os vírus e 50% acreditam que servem para tratar constipações e gripe, o que não é verdade.

De acordo com a OMS, o aumento da resistência aos antibióticos representa “um imenso perigo para a saúde mundial” e esta resistência “atinge níveis perigosamente elevados em todas as partes do mundo”.

Junte-se a esta causa e colabore para um melhor futuro para todos nós!

Tome apenas o antibiótico, quando prescrito pelo médico e faça-o de acordo com as orientações e recomendações.

Alexandre Carvalho

Coordenador da Unidade de Farmacovigilância da ULS Braga

Betânia Faria

Farmacêutica da ULS Braga

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