O fascínio humano pela tecnologia é quase universal – uma tendência que se intensificou com a epifania da inteligência artificial. Proliferam aplicações dotadas de funcionalidades cada vez mais apelativas, sedutoras e até aditivas. Este fenómeno alastra-se transversalmente por diversas esferas sociais e científicas. A medicina não é exceção.
Por um lado, houve necessidade de adaptação à forma como as populações vivem e se relacionam; por outro, as ferramentas de apoio à decisão clínica e de difusão de informação representam verdadeiros desafios para o médico do futuro, que se verá confrontado com uma evolução das leges artis a um ritmo exigente e difícil de acompanhar.
Tal como o paciente do futuro, mais informado (ou desinformado?), o médico do futuro será, inevitavelmente, diferente. Mas que será feito do médico de outrora? Haverá lugar para o João Semana?
O médico de proximidade e conhecedor das pessoas e dos seus familiares é uma espécie ameaçada. O seu herdeiro mais próximo é o médico de família. De facto, na sua essência o médico de família mantém (ou tenta manter) a tradição da prestação de cuidados de saúde longitudinais centrada na pessoa e no seu contexto socio-familiar. Para além disso, tendo em conta o seu caracter eclético e generalista o médico de família proporciona uma gestão de recursos mais eficiente. Esta gestão não se resume apenas ao uso racional de exames médicos ou medicamentos, mas envolve a abordagem holística do médico de família, com ênfase na prevenção de doenças e na redução de tratamentos desnecessários. Esta abordagem proporciona assim um sistema de saúde mais humanizado, sustentável e acessível. Por isso, desde a histórica Declaração de Alma-Ata, os cuidados de saúde primários – nível de cuidados onde o médico de família milita – são reconhecidos como a base dos sistemas de saúde.
Mas então, porque está o médico de família ameaçado?
É amplamente reconhecida a carência de médicos de família em Portugal. Este fenómeno faz com que as listas de utentes tenham dimensões incompatíveis com a prática de medicina de proximidade, fazendo com que o tempo de espera para uma consulta não corresponda às expectativas dos doentes. Esta dificuldade, aliada à cada vez maior especialização dos clínicos, faz com que surjam soluções intermédias que diluem o caráter generalista do médico de família. A consulta de cessação tabágica ou a consulta da dor são exemplos dessas soluções, cujo conteúdo é exequível por um médico de família e cuja principal proposta de valor é a acessibilidade. Contudo, num sistema de acesso ideal ao médico de família, essas estruturas perderiam o seu sentido, uma vez que o médico de família seria capaz de abordar esses problemas dentro da sua prática.
A acessibilidade está também comprometida pelo peso da burocracia. Grassam atestados, relatórios, formulários, certidões e outros documentos de igual teor, que consomem tempo clínico precioso. O excesso de atos de baixo valor acrescentado, como a prescrição de fraldas ou de produtos de higiene menstrual, afasta o médico da essência do seu trabalho: o contacto direto, empático e resolutivo. Torna-se, por isso, imperativa a criação de mecanismos que libertem os clínicos dessas tarefas, como a implementação eficaz do Registo de Saúde Eletrónico Único e de sistemas automatizados de gestão documental.
Neste tempo digital e tecnológico, devemos aproveitar os desenvolvimentos para catapultar o SNS para níveis mais elevados de eficiência, preservando o médico de família como a peça-chave de um sistema que se quer próximo das pessoas.
Dinis Brito
Médico de Família da USF 7 Fontes da ULS Braga
