O aumento progressivo da população com patologia renal e o número crescente de doentes hemodialisados justifica este texto, que se escreve no âmbito do Dia Mundial do Rim, celebrado a 14 de março.
Os rins recebem cerca de 25% do sangue que o coração bombeia e têm importantes funções: “limpam” o sangue, eliminando produtos, muitas vezes tóxicos, do nosso metabolismo; removem medicamentos da circulação; regulam a quantidade de sal e água do organismo; intervêm no controle da tensão arterial; mantêm os “ossos saudáveis”, através da ativação da vitamina D; produzem hormonas como a eritropoietina, que controla a produção de glóbulos vermelhos e sem a qual teríamos todos anemia; mantêm o equilíbrio do meio interno, essencial à vida.
A Doença Renal é causa e consequência de outras doenças. Quando associada a outras condições crónicas acompanha-se de maior mortalidade e morbilidade, causando dependências.
Sabe-se existirem contextos clínicos associados a elevada probabilidade de determinarem, mais cedo ou mais tarde, uma afetação renal. São estes a Diabetes Mellitus, Hipertensão, Doença Cardiovascular, toma crónica de medicamentos com toxidade renal, como os anti-inflamatórios não esteróides. Em grupos étnicos específicos e quando existe história familiar de doença renal, sabe-se existir incidência aumentada. Nestes doentes preconiza-se um rastreio de doença renal.
A Doença Renal evolui de forma silenciosa, muitas vezes sem sintomas. Mesmo assim referem-se alguns: falta de força, perda de apetite, perda de peso, necessidade de urinar muitas vezes ao longo do dia, pernas “inchadas”, devido à retenção de líquidos, palidez (devido à anemia).
As medidas preventivas incluem rastreios nas populações de risco, ações de formação dando a conhecer este importante órgão, as suas funções e a consequência da sua disfunção, com o objetivo de ter uma população atenta e ativa, constituindo-se como elemento primordial nos cuidados de saúde.
Discriminam-se como cuidados fundamentais:
- Monitorizar a tensão arterial – tensão arterial alta acelera a lesão renal e o ritmo de progressão da doença; uma medida adicional, também protetora, inclui uma dieta pobre em gorduras saturadas.
- Reduzir o sal na dieta – reduza para menos de 6 gramas por dia. Fale com o seu médico de família.
- Manter-se ativo e em forma – ajuda a reduzir a hipertensão e a obesidade, diminuindo o risco de doença renal.
- Não fumar – fumar reduz o fluxo de sangue distribuído aos rins, impedindo o seu funcionamento adequado.
- Fazer uma alimentação saudável e controlar o peso – esta medida previne o aparecimento de diabetes, doença cardiovascular e outras condições associadas à doença renal.
- Avaliar a função renal frequentemente – particularmente relevante se existir história familiar de doença renal, ou se é hipertenso, diabético ou obeso.
- Manter-se bem hidratado – esta medida simples ajuda o rim a “limpar” as toxinas do organismo, podendo diminuir significativamente o risco de doença renal e a incidência de infeções do trato urinário.
- Manter-se informado – conheça os seus problemas e aprenda a geri-los, articulando-se com os cuidados de saúde que a medicina geral e familiar e o hospital lhe podem propiciar.
Relativamente ao tratamento da Doença Renal, nos estadios mais avançados será necessária a orientação em consulta de Especialidade de Nefrologia, enquanto nos intermédios é suficiente o seguimento em Medicina Geral e Familiar.
Lembre-se: os rins não têm dias, funcionam ininterruptamente. A prevenção da Doença Renal tem que ser o objetivo primeiro, só possível com o envolvimento de todos. Não chega esgotarmo-nos em considerações e intervenções num dia que lhe esteja destinado.
É necessário mudar políticas e paradigmas. É fundamental mudar as pessoas, empenhá-las, torná-las ativas – a chamada “ativação do doente”. É uma corrida de fundo, uma maratona.
Vamos empenhar-nos todos para construir esta mudança.

António Ramalheiro
Nefrologista da ULS Braga