A declaração de Veneza, recentemente apresentada no congresso do capítulo europeu da IFSO (Federação Internacional para Cirurgia da Obesidade), é um bom ponto de partida para refletirmos neste dia nacional de luta contra a obesidade. Este manifesto, divulgado no passado sábado, dia 17 de maio de 2025, reforça o grito de alerta global sobre a forma de diagnosticar, tratar e falar sobre a obesidade. É hora de mudar o paradigma: a obesidade é uma doença crônica que deve ser tratada de forma multimodal, de maneira equitativa e sem estigmas.
O Dia Nacional de Luta contra a Obesidade foi criado em 2004 e é celebrado no penúltimo sábado de maio. A iniciativa foi promovida pela Direção-Geral de Saúde, que alertou que, se nada fosse feito para combater essa realidade, cerca de metade da população portuguesa poderia desenvolver esta doença nas próximas décadas. A data tem o objetivo de sensibilizar a população para a obesidade e as doenças associadas, incentivando a prática de exercícios físicos e promovendo hábitos alimentares saudáveis, especialmente entre crianças e jovens.
A obesidade, quando tratada apenas com medidas conservadoras de mudança de estilo de vida, como plano alimentar e exercício físico, na maioria das vezes (cerca de 80%) não resulta no controlo eficaz e sustentado da doença. Essa limitação das ações mais simples, aliada à forte procura por motivos estéticos e interesses financeiros, levou a um aumento significativo no investimento por parte de grandes laboratórios internacionais. Após anos de medicamentos com resultados modestos, hoje temos fármacos com efeito metabólico, como os famosos agonistas da GLP-1, que começam a revelar perdas de peso mais significativas. Essas terapêuticas, apesar de não comparticipadas pelo Serviço Nacional de Saúde, começam a apresentar resultados mais robustos e sustentados, quando usados como terapêutica crónica. Ainda assim, a cirurgia bariátrica ou metabólica continua a ser, atualmente, o tratamento mais eficaz para a obesidade grave.
No Hospital de Braga, a Unidade de Tratamento Cirúrgico de Obesidade realiza cerca de 250 procedimentos por ano, usando as técnicas mais comuns como a gastrectomia vertical calibrada e o bypass gástrico. Todas as cirurgias são feitas de forma minimamente invasiva, por laparoscopia, através de pequenas incisões abdominais. Essa abordagem proporciona uma recuperação rápida e taxas de complicações muito baixas.
Importa sublinhar que nem mesmo a cirurgia é uma garantia absoluta de bons resultados. Alguns pacientes não atingem a perda de peso esperada ou recuperam peso após um período inicial de sucesso. Assim como qualquer tratamento de doenças complexas é fundamental estabelecer um plano terapêutico individualizado, contando com uma equipe multidisciplinar de profissionais especializados no acompanhamento dos doentes. Reforçando a mensagem da citada declaração de Veneza, é preciso entender que a obesidade é uma doença crônica que tem de ser tratada de forma multidisciplinar, imparcial e livre de preconceitos.
Cristina Ribeiro, José Pedro Pinto, Maia da Costa e Fernando Manso
Serviço de Cirurgia Geral da ULS Braga
