Falamos de SIDA? O primeiro tabu a quebrar é que a infecção pelo VIH (Vírus da Imunodeficiência Humana) não é sinónimo de SIDA (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida)! O VIH é um vírus que ataca o sistema imunitário; se esta infecção não for tratada pode levar à SIDA, uma condição avançada em que os doentes ficam gravemente doentes, muito vulneráveis a outras infecções, precisamente pelo compromisso do bom funcionamento do sistema imunitário. Assim, VIH e SIDA não são sinónimos.
É também importante clarificar quais as vias de transmissão do vírus: através de relações sexuais sem proteção (vaginais, anais ou orais), partilha de agulhas ou seringas contaminadas, transfusões de sangue não testadas (muito raro atualmente, devido aos rigorosos protocolos) e da mãe para o filho, durante a gravidez ou parto se não forem tomadas medidas preventivas. É essencial derrubar o tabu das falsas vias de transmissão: o VIH não é transmitido por abraços, beijos ou toque, uso partilhado de talheres, pratos ou copos, piscinas, casas de banho ou cadeiras.
Com os avanços científicos das últimas décadas, o VIH deixou de ser uma sentença de morte. Os medicamentos antirretrovirais permitem que estas pessoas tenham vidas saudáveis, sem sinais visíveis de que estão infectadas, ao contrário do estigma do início da pandemia. Mesmo aqueles diagnosticados já numa fase avançada da doença, com imunidade debilitada, conseguem reverter essa tendência.
Outro pilar muito importante associado ao desenvolvimento de novos tratamentos é conhecido desde 2016 pelo slogan “indetectável = intransmissível” (I=I). De facto, os medicamentos disponíveis reduzem a carga do vírus até níveis indetectáveis no sangue, a transmissão sexual deixa de ocorrer. Sob tratamento eficaz, as pessoas com VIH podem assim ter relações sexuais desprotegidas, sem risco de transmissão aos descendentes, controlada atualmente com tratamentos simples como um comprimido por dia ou até injetáveis administrados de 2 em 2 meses.
A prevenção da transmissão do VIH é suportada, hoje em dia, por uma combinação de várias medidas disponíveis:
– Uso de preservativo: em Portugal disponibilizados gratuitamente (femininos e masculinos) em escolas, universidades e locais de diversão noturna, centros de saúde e hospitais com consultas relacionadas com saúde sexual.
– Programa de troca de seringas: disponibiliza gratuitamente a troca de material em utilizadores de drogas injetáveis, estratégia conhecida historicamente como uma das mais importantes na redução da transmissão da infecção em Portugal.
– Profilaxia Pré-Exposição (PrEP): terapêutica preventiva disponível para adultos e adolescentes em situações de alto risco de exposição ao VIH, como homens que têm sexo com homens, pessoas com diagnóstico frequente de infecções sexualmente transmissíveis ou trabalhadores do sexo.
– Profilaxia Pós-Exposição (PEP): tratamento de emergência para evitar a infeção após exposição de risco ao vírus.
– Testes regulares: conhecer o estado serológico permite o início precoce do tratamento e evita novas transmissões; existem testes rápidos disponíveis em farmácias, centros de saúde e várias associações de base comunitária (em Braga, o GAT, Abraço, Autoestima, CAT), onde o teste pode ser realizado de forma rápida e anonimizada.
Outros tabus estão ainda associados ao VIH, alimentando o preconceito e a desinformação:
- “O VIH é uma doença de grupos específicos. “O VIH não discrimina: qualquer pessoa pode ser infectada, independentemente de género, orientação sexual, idade ou condição socioeconómica.
- “Pessoas com VIH são perigosas ou imorais. “Este estigma associa o VIH à moralidade, perpetuando a ideia de que a infecção é resultado de escolhas “erradas”. Isso não apenas é falso, mas também isola e desumaniza quem vive com a infecção.
Hoje, a infecção pelo VIH é uma doença que, apesar de não ter cura, é possível ser controlada, com as pessoas infectadas a viverem com esperança de vida próxima à de uma pessoa não infectada. É importante um compromisso coletivo para eliminação do estigma, onde a informação e a empatia são fundamentais para construir uma sociedade inclusiva e livre de preconceitos. Esta preocupação reflecte-se em dados divulgados pela DGS: em 2021 e 2022, 40% das pessoas que vivem com a doença referiu já ter sofrido de discriminação social e 15% já sofreu alguma violação dos seus direitos.
Junte-se à luta contra o preconceito e ajude a disseminar a informação correta. Se pretende saber mais, consulta páginas com informação científica, como www.sns24.gov.pt/tema/doencas-infecciosas/vih.
Joana Laranjinha
Infeciologista da ULS Braga
