O dia Mundial da Saúde Digestiva é celebrado no dia 29 de maio, coincidindo este ano com a Semana Digestiva, congresso que reúne os profissionais de saúde dedicados ao tratamento de doenças digestivas. 

Nos dias que correm a saúde digestiva é um dos pontos quentes na esfera pública. 

Os fatores que podem contribuir para o equilíbrio da saúde digestiva estão dependentes das características hereditárias de cada indivíduo e da interação com os elementos do estilo de vida, do local habitado no planeta, do tipo de família, da relação com outros seres vivos e da tradição de cada sociedade.  

O sistema digestivo humano é complexo e tem uma característica peculiar face a outros sistemas uma vez que congrega células de vários tipos, enzimas e hormonas, para além de vida microbiológica que diverge de indivíduo para indivíduo e que é irrepetível. É dotado adicionalmente de uma capacidade de tolerância face a agentes externos, ou seja, consegue não reagir com uma resposta inflamatória à exposição à maioria das substâncias com as quais contacta ao longo da vida.  Se é verdade que os processos de produção, preparação e conservação alimentar reduziram a desnutrição global e a incidência de doenças infeciosas, paralelamente aumentaram a exposição a inúmeras substâncias que vieram alterar uma harmonia ancestral. Não podemos igualmente ignorar o impacto do consumo de antibióticos na flora bacteriana intestinal bem como de outros fatores ambientais nos quais se incluem a poluição ou o plástico.  

Se no passado, as doenças infeciosas como parasitoses e gastroenterites infeciosas constituíam a principal fonte de preocupação clínica, essencialmente condicionadas por cuidados de higiene e sanitização precárias, nas sociedades modernas ocidentais, passámos a lidar correntemente com patologias primordialmente oncológicas, inflamatórias (ex. doença de Crohn, Colite Ulcerosa e várias doenças de fígado), alérgicas (ex. doença celíaca) assim como imensas intolerâncias alimentares, a mais frequente das quais à lactose.    

As dietas tradicionais têm vindo a descaracterizar-se, fruto da aldeia global que é o mundo atual, onde se confundem vários géneros de cozinha com experiências gastronómicas, porventura nem sempre alinhadas com a melhor saúde digestiva. Temos assistido a uma invasão cada vez maior de alimentos pré-confecionados e processados com quantidades excessivas de sal, açúcar, edulcorantes e adoçantes artificiais, com paladares altamente aditivos, satisfazendo de forma imediata, mas temporária o organismo, à custa de um maior risco global de saúde,  também de doenças não digestivas como as cardiovasculares e metabólicas com a obesidade à cabeça.  

Apesar da evolução do conhecimento e de todas as experiências promovidas, a boa notícia para nós portugueses é que a dieta mediterrânica, variada e rica em produtos frescos, legumes, verduras, gordura vegetal como o azeite, peixe e carne contínua a ser o exemplo mais consensual entre os peritos acerca da melhor dieta a aconselhar.  A ingestão de água, chá, sumos naturais de fruta e café mantém-se como um dos alicerces da saúde, em contraponto com a ingestão abusiva de bebidas gaseificadas e açucaradas, algo que deve ser fortemente promovido nas franjas mais jovens da população, não descurando naturalmente a prática regular de atividade física adaptada às capacidades de cada indivíduo. Cuidemos do nosso tubo digestivo, para uma vida mais longa e com melhor qualidade. 

Bruno Arroja

Médico Gastroenterologista da ULS Braga