A deglutição é uma das funções orais mais complexas do ser humano, exigindo a coordenação precisa de diversos músculos localizados na cavidade oral, faringe, laringe e esófago. Este mecanismo resulta da ativação integrada de vários nervos cranianos — trigémeo, facial, glossofaríngeo, vago, acessório e hipoglosso — bem como de nervos periféricos, cuja coordenação ocorre ao nível do tronco cerebral. 

Diversas patologias neurológicas, como o acidente vascular cerebral, a doença de Parkinson, a esclerose lateral amiotrófica e os traumatismos cranioencefálicos, bem como alterações estruturais da orofaringe, cabeça, pescoço ou esófago, podem conduzir a perturbações da deglutição, conhecidas como disfagia. Classificada pela CID-10 (R13) como “sintomas e sinais digestivos”, a disfagia afeta cerca de 8% da população mundial, aproximadamente 590 milhões de pessoas. 

A disfagia caracteriza-se pela alteração da segurança e/ou eficácia da deglutição, traduzindo-se na dificuldade de transportar o bolo alimentar da cavidade oral até ao estômago. Pode manifestar-se em qualquer uma das fases da deglutição — antecipatória, oral, faríngea ou esofágica — e desencadear um conjunto complexo de consequências nutricionais e respiratórias. 

A presença de disfagia está frequentemente associada a alterações salivares, fraqueza muscular, lentificação da resposta neural e colonização bacteriana orofaríngea, especialmente em pessoas com higiene oral deficitária. Estes fatores comprometem a eficácia na propulsão do bolo alimentar e reduzem a segurança durante a deglutição, aumentando o risco de penetração ou aspiração, muitas vezes silenciosa devido à diminuição da sensibilidade. A progressão destes défices pode comprometer gravemente o estado geral da pessoa com disfagia, contribuindo para a malnutrição, desidratação, internamentos prolongados, sarcopenia e estados de fragilidade acentuada, podendo mesmo aumentar o risco de mortalidade. Estes episódios potenciam infeções respiratórias e pneumonia por aspiração, sobretudo em utentes com pobre higiene oral, e estão associados a maior número de readmissões hospitalares e custos em saúde. 

A pneumonia por aspiração é definida como uma infeção respiratória resultante da entrada, geralmente em grande volume, de conteúdo orofaríngeo ou gastrointestinal nas vias aéreas.  

Perante o referido, é fundamental identificar precocemente os sinais de risco (como tosse e/ pigarro antes, durante e após refeições, sensação de corpo estranho na garganta, voz molhada, infeções respiratórias recorrentes, perda de peso, entre outros), de maneira a permitir uma intervenção atempada, potenciando uma reabilitação mais eficaz e segura, reduzindo o impacto das complicações associadas à disfagia. 

No âmbito do Dia Mundial da Deglutição, reforça-se a importância da sensibilização para esta condição, frequentemente subdiagnosticada, que afeta a saúde, a nutrição e a qualidade de vida de milhões de pessoas em todo o mundo. 

Catarina Maia Cunha e Laura de Castro Coelho

Terapeutas da Fala no Serviço de Medicina Física e Reabilitação da ULS Braga