Quando falamos de saúde, a maioria das pessoas pensa em algo momentâneo: sentir-se bem, não ter dores, não estar doente. Mas e se começássemos a pensar na saúde como uma poupança ao longo da nossa vida?
De acordo alguns estudos, a questão central é a procura de saúde e não propriamente a procura de cuidados de saúde. Podemos fazer a seguinte analogia: pensar na saúde como uma conta bancária. Assim como fazemos com o nosso dinheiro, também podemos “poupar saúde”. Este conceito relativamente recente, conhecido como “stock de saúde”, é cada vez mais discutido por especialistas e serve para explicar porque é tão importante cuidarmos de nós, mesmo quando nos sentimos bem.
O stock de saúde é como uma reserva que se vai acumulando desde o nascimento e que vamos perdendo, sobretudo com o envelhecimento ou com estilos de vida pouco saudáveis.
Cada escolha saudável que fazemos – uma alimentação equilibrada, exercício físico regular, consultas de rotina, vacinação em dia, um sono adequado – funciona como um depósito de saúde. Mas, se negligenciar estes investimentos, o seu saldo vai diminuindo, deixando-o vulnerável a doenças ou imprevistos de saúde.
A nossa saúde é limitada, mas pode render muito mais se a tratarmos como um recurso valioso e não como uma garantia. Gerir bem o nosso “stock de saúde” é mais do que cuidarmo-nos quando estamos doentes: é fazer escolhas conscientes diariamente, preservando aquilo que temos de mais precioso – a nossa saúde.
Estudos recentes mostram que pessoas com maior “stock de saúde” vivem com mais qualidade de vida, têm melhor rendimento no trabalho, diminuem o número de faltas ao trabalho e melhoram os rendimentos. Isto traduz-se num menor consumo de medicamentos, mais anos de vida com autonomia e, consequentemente, menos consumo de cuidados de saúde. Daí ser importante haver um equilíbrio entre o tempo de trabalho, lazer e tempo na produção de saúde.
Quando olhamos à nossa volta, percebemos que os países onde a população tem um stock de saúde mais alto são também os que têm melhores condições de vida, economias mais estáveis e sistemas de saúde mais sustentáveis. Este capital não se mede apenas em euros, mas em vidas saudáveis, em bem-estar coletivo e em oportunidades que surgem quando as pessoas estão saudáveis.
Cuidar do stock de saúde implica também saber usar bem os recursos que o sistema de saúde coloca ao nosso dispor. Nem tudo precisa de ser tratado nos serviços de urgência, nem todos os problemas exigem um exame ou uma consulta
hospitalar. Saber quando e como recorrer aos serviços de saúde é parte da nossa responsabilidade como cidadãos. Um sistema de saúde mais eficiente começa com decisões ponderadas por parte de quem o usa, evitando sobrecargas e garantindo que, quem mais precisa, tem acesso rápido aos cuidados adequados.
Sabemos hoje que cada euro investido em saúde preventiva poupa muitos outros em tratamentos futuros. E não estamos a falar apenas de poupança financeira, estamos a falar de vidas com menos dor e mais autonomia. Cuidar da saúde antes de ela faltar é sempre a melhor decisão, para todos.
A saúde é a única riqueza que, se não a soubermos poupar e usar com consciência, amanhã pode faltar-nos até para viver.

Miguel Cerqueira
Enfermeiro Especialista em Enfermagem de Reabilitação do Serviço de Medicina Interna da ULS Braga

