A obesidade é uma das grandes crises de saúde pública do século XXI. Reconhecida como uma doença crônica pela Organização Mundial da Saúde (OMS), afeta mais de 650 milhões de adultos e 340 milhões de crianças e adolescentes no mundo. Em Portugal, quase 29% dos adultos são obesos, e este número estima-se que chegará a 39% até 2035.
A obesidade vai muito além do excesso de peso. Está associada a mais de 100 doenças, como diabetes tipo 2, hipertensão, doenças cardiovasculares, apneia do sono, problemas articulares e vários tipos de cancro. Pessoas obesas têm maior risco de morte precoce e perda significativa de qualidade de vida.
O diagnóstico baseia-se no Índice de Massa Corporal (IMC), calculado dividindo o peso pelo quadrado da altura. Um IMC acima de 25 kg/m² indica excesso de peso, e acima de 30 kg/m² classifica obesidade, sendo que são considerados classicamente três graus desde obesidade grau 1 (30 a 35 kg/m²) a obesidade grau 3 (acima de 40 kg/m²).
Embora existam várias formas de tratar a obesidade, a cirurgia bariátrica destaca-se como a mais eficaz, em termos de comprovação científica, para casos graves. Este procedimento reduz significativamente o peso e melhora doenças associadas. Inicialmente considerada uma “última opção”, as novas orientações internacionais sugerem que pessoas com obesidade grau 2 e até grau 1 (com doenças associadas) podem beneficiar da cirurgia.
As técnicas mais comuns são o bypass gástrico e a gastrectomia vertical (“sleeve”). Realizadas por laparoscopia, com pequenas incisões abdominais, estas cirurgias são minimamente invasivas e têm baixas taxas de complicações. A cirurgia robótica é uma evolução recente que melhora ainda mais a precisão dos procedimentos.
Entre os principais benefícios estão:
Perda de peso sustentada: A redução de 25% a 35% do peso é mantida a longo prazo.
Melhoria das doenças associadas: Muitos pacientes experimentam remissão de doenças como diabetes e hipertensão.
Maior sobrevida
No entanto, a cirurgia não é uma solução milagrosa. Exige compromisso com mudanças no estilo de vida, que carece de acompanhamento de uma equipa com valências multidisciplinares. O objetivo só consegue atingir-se de forma integrada, com protocolos bem estruturados e objetivos mais específicos e individualizados em diferentes dimensões, como por exemplo:
Reeducação alimentar: hábitos saudáveis adaptados e ajustados individualmente, com apoio de técnicos nutricionistas.
Exercício físico regular: reforço e estimulação à prática diária, idealmente com apoio de fisioterapeuta ou fisiologista.
Apoio psicológico: monitorização constante com apoio protocolar de psicologia e psiquiatria, para garantir as melhores condições emocionais comportamentais.
Medicamentos: úteis em casos selecionados no controlo de comorbilidades, preparação para cirurgia e até otimização de resultados em termos de perda de peso.
Procedimentos endoscópicos: os médicos gastrenterologistas, para além do estudo pré-operatório de rotina, têm desenvolvido técnicas de intervenção importantes a considerar em casos específicos
A cirurgia bariátrica é uma ferramenta poderosa, mas não age sozinha. O sucesso a longo prazo depende de um esforço multidisciplinar e do compromisso do paciente.
Enfrentar a obesidade requer união de esforços para melhorar a saúde e a qualidade de vida. Só com informação e suporte adequados, podemos transformar vidas e combater esta epidemia global.

Cristina Ribeiro, José Pedro Pinto, Maia da Costa e Fernando Manso
Médicos do Serviço de Cirurgia Geral da ULS Braga

