O número de mulheres a frequentar os cursos de Medicina cresceu 340% nos últimos 30 anos em Portugal. Contudo, representam ainda menos de 30% dos investigadores nacionais, pelo que continuam a estar muito sub-representadas. As causas apontadas são de várias ordens, desde dificuldades em conciliar a vida familiar com a investigação, a desigualdade no acesso às posições-chave, ou até mesmo a falta de mentores, nomeadamente mulheres, que as motivem a enveredar por esta via.  

Esta consciência de iniquidade de género tem sido alvo de interesse e preocupação de diversas instituições e sociedades científicas, mas também das Nações Unidas e do Parlamento Europeu, que têm tentado desenvolver uma série de iniciativas e a implementação de medidas que favoreçam o aumento do número de mulheres envolvidas na investigação. 

Efetivamente as mulheres são diferentes, e é por serem diferentes que são uma mais-valia a incluir numa equipa de investigação, tornando-a mais diversificada e, assim, facilitando o sucesso e a excelência da investigação, incrementando a sua robustez e fiabilidade. São-lhes reconhecidas qualidades como sejam a empatia, o humanismo, a capacidade técnica e organizativa, e sim, porque não dizê-lo, a sua enorme resiliência, fruto de experiências de vida e nuances especificas que cada uma aporta, a perspetiva feminina!  

É um fato que o crescimento do número de mulheres nos cursos de medicina, uma área em que a evolução científica quer-se pujante, é, em si mesmo, um avanço na alteração deste paradigma, assim sejam dados passos no sentido de proporcionar equidade de oportunidades, nomeadamente no que diz respeito aos cargos de liderança das equipas de investigação, seja nas ciências básicas, seja mais a jusante e próximo dos doentes, como, por exemplo, nos ensaios clínicos. 

Numa nota mais pessoal, tal como acontece com muitos outros médicos, embebida por um espírito de missão, cedo percebi qual era a minha vocação. Apoiada incondicionalmente pelos meus pais, persisti e esforcei-me na persecução dessa vocação. Nunca desisti, mantive-me resiliente e fiel à persecução da minha realização profissional… tornei-me Médica, a seguir Cardiologista e depois Eletrofisiologista. Persisto ainda, diariamente, na construção e na consolidação da minha carreira profissional, numa área de intervenção onde as mulheres escasseiam, mas que me realiza profundamente porque sei que todos os dias tenho a oportunidade de fazer a diferença na vida dos meus doentes.  

Paralelamente com a minha atividade assistencial, onde tento impulsionar novas e melhores tecnologias sempre que possível, procuro desenvolver atividade de investigação clínica hospitalar, participando em diversos estudos de âmbito local e multicêntrico, assim como ensaios internacionais, no âmbito da parceria com o Centro Clínico Académico, almejando contribuir para avanços científicos de relevo, procurando melhorar os cuidados a oferecer aos nossos doentes. Tudo isto não se consegue sem alguma ambição e esforço, mas, no global, considero-me uma privilegiada pois, além de me sentir realizada profissionalmente, também o sou pessoalmente. Tenho uma família que sempre me apoiou e me orgulha muito, e luto todos os dias para que consiga servir de modelo como filha, mulher, mãe e profissional dedicada.  

Para as meninas e mulheres cientistas: nunca desistam, sigam a vossa paixão! Tal como dizia Marie Curie: “Temos que acreditar que somos dotados para algo, e que esse algo deve ser conquistado, a qualquer custo.” 

 

Sérgia Rocha

Médica do Serviço de Cardiologia da ULS Braga