A ideia de que determinados alimentos ou nutrientes conseguem reforçar o sistema imunitário é extremamente popular, sobretudo em épocas de maior incidência de infeções respiratórias, como o inverno. No entanto, a evidência científica mostra que esta relação é mais complexa do que muitas vezes se faz crer. Em geral, os estudos que avaliam o impacto direto da alimentação na imunidade são escassos e revelam efeitos modestos.
Um dos micronutrientes mais discutidos é a vitamina D. Importa, desde logo, não lhe atribuir um papel terapêutico, mas sim preventivo. Muitas células do sistema imunitário possuem recetores para esta vitamina, sugerindo uma função relevante na sua regulação. A sua suplementação, sobretudo quando feita de forma diária ou semanal, está associada a uma ligeira redução do risco de infeções respiratórias. Contudo, este efeito é pequeno e torna-se mais evidente em pessoas com défice prévio (com níveis sanguíneos são inferiores a 25 nmol/L). Uma particularidade da vitamina D, quando comparada com outros nutrientes, é a elevada prevalência de défice na população. Além disso, este problema agrava-se com a idade: a partir dos 70 anos, a capacidade do organismo para a sintetizar através da exposição solar diminui significativamente.
Outro micronutriente que importa falar é a vitamina C, que também desempenha um papel importante no funcionamento do sistema imunitário. Encontra-se em concentrações elevadas nos glóbulos brancos e participa ativamente na resposta do organismo a infeções. Durante uma síndrome gripal ou em situações de maior stress oxidativo, os seus níveis diminuem consideravelmente, uma vez que é um dos principais antioxidantes obtidos através da alimentação. Ainda assim, muitos fitoquímicos presentes na fruta e nos legumes possuem uma capacidade antioxidante ainda superior.
Apesar da importância destes nutrientes é fundamental evitar uma visão simplista, já que nenhum alimento, nutriente ou suplemento é capaz, por si só, de modificar o curso da doença e ativar ou fortalecer efetivamente o sistema imunitário. O que realmente faz a diferença é manter um padrão alimentar equilibrado e variado, que inclua frutas, legumes, leguminosas, cereais integrais, fontes de proteína de qualidade e gorduras saudáveis, e que permita manter um bom estado nutricional.
Importa ainda recordar que a forma mais eficaz de dar um verdadeiro “boost” ao sistema imunitário é a vacinação. No caso das infeções respiratórias, a vacina da gripe continua a ser a estratégia mais eficaz de prevenção, sobretudo em grupos de risco como idosos e doentes crónicos. Para além disso, medidas simples de higiene pessoal têm um impacto muito mais significativo do que qualquer alimento ou suplemento, como a lavagem frequente das mãos e as regras de etiqueta respiratória.
Assim, garantir uma alimentação variada e rica em antioxidantes provenientes da fruta e dos legumes, fazer a vacina da gripe anualmente e praticar exercício físico regular são, em conjunto, as estratégias mais eficazes para promover um bom funcionamento do sistema imunitário. Mais do que procurar soluções rápidas, a ciência mostra-nos que a imunidade depende de hábitos consistentes.

Alexandra Sousa da Silva
Nutricionista nos Cuidados de Saúde Hospitalares na ULS Braga

