O que são doenças auto-imunes?

São doenças causadas pela desregulação do nosso sistema de defesa – o sistema imunitário. Em situações normais, o sistema imunitário protege o nosso organismo dos microrganismos, produzindo anticorpos que são proteínas especiais que reconhecem e destroem esses invasores.

As doenças auto-imunes acontecem quando estes anticorpos atacam as células, tecidos e órgãos do próprio organismo, ou seja, quando o sistema imunitário se desorienta e ataca o próprio corpo e os órgãos que deveria proteger. O motivo desta desregulação ainda não é totalmente conhecido.

Como se apresentam as doenças auto-imunes?

As doenças auto-imunes atingem, na sua maioria, três vezes mais mulheres do que homens. Entre os sintomas mais comuns estão a febre prolongada, dores nas articulações com edema associado, manchas vermelhas na face e tronco que aumentam com a exposição ao sol, aftas, alteração das cores dos dedos, fadiga extrema e alterações analíticas como anemia, diminuição das plaquetas e aumento dos parâmetros de inflamação.

Estas doenças podem ser localizadas a órgãos ou sistémicas. Exemplo paradigmático das doenças auto-imunes localizadas a órgãos são a diabetes mellitus tipo 1, o vitiligo (doença da pele caracterizada por manchas brancas) ou a tiroidite auto-imune. Doenças como o lúpus eritematoso sistémico, artrite reumatóide e doenças inflamatórias das paredes dos vasos (vasculites) são exemplos de doenças auto-imunes sistémicas.

O reconhecimento pode ser difícil?

Sim, e por vários motivos. Algumas destas doenças são de ocorrência relativamente rara. Por outro lado, a apresentação clínica destas doenças pode ser confundida com outras, nomeadamente do foro infecioso ou cancro. Outra dificuldade para o reconhecimento é que a maioria destas doenças pode apresentar-se de variadíssimas formas – desde formas mais leve (ou indolentes) até apresentações muito graves.

Acresce ainda que, durante um período mais ao menos longo do seu curso, existem exacerbações e melhorias espontâneas inerentes aos mecanismos do sistema imunitário e da sua tentativa de regulação. Todos estes factores potenciam um sub-reconhecimento das mesmas. No momento em que a doença passa a ter uma expressão mais contínua nos órgãos ou a causar dano (cicatriz na pele; deformidade articular; doença nos pulmões ou nos rins) acaba por ser definitivamente diagnosticada.

Qual a importância do reconhecimento (precoce)?

Por todas as características referidas, deve haver um elevado índice de suspeição para estas doenças – para atempado diagnóstico e intervenção terapêutica.

Quem trata e onde tratar?

As doenças auto-imunes de órgão são normalmente tratadas pelas especialidades médicas dedicadas ao órgão. A diabetes mellitus tipo 1 e a tiroidite auto-imune, quando decorre com alteração da função tiroideia, são tratadas pela endocrinologia. A doença inflamatória intestinal (Doença de Crohn ou a colite ulcerosa – também elas doenças auto-imunes de órgão) são tratadas pela gastrenterologia. As doenças auto-imunes sistémicas, que afectam vários órgãos, são tratadas, a nível hospitalar, por médicos que se dedicam ao estudo destas doenças, como é o exemplo da Medicina Interna.

O peso de um diagnóstico, por vezes complexo. Nem sempre é fácil explicar aos doentes o que é uma doença auto-imune; o que é isto de o nosso sistema imune, de um momento para o outro e sem aparente motivo, começar a atacar e a destruir estruturas do nosso corpo.

Adicionalmente, dizemos destas doenças, particularmente das sistémicas, que não há duas doenças iguais. Sem grandes elementos que nos ajudem a dar um prognóstico, a incerteza da evolução pesa muito no bem estar destes doentes.

Recomendações?

A chave para o sucesso no tratamento destas doenças, que passa muitas vezes pelo uso de medicamentos imunossupressores, é o reconhecimento atempado, a disponibilidade de informação para incluir o doente no processo de diagnóstico e tratamento e na promoção de um estilo de vida saudável.

Nestas doenças não procuramos a cura (que não existe) mas mais o estabelecimento de uma boa qualidade de vida.

Carlos Capela

Médico de Medicina Interna da ULS Braga