A Esclerose Múltipla é uma doença sistema nervoso central, de origem auto-imune e causa ainda desconhecida. Na Esclerose Múltipla o sistema imunitário desregulado danifica os constituintes do cérebro e da medula espinhal.
Os principais alvos são as células que produzem mielina, um revestimento rico em gordura que envolve os axónios (prolongamento dos neurónios, que lhes permite transmitir informação a outros neurónios) e é importante para a sua função e sobrevivência, embora os neurónios sejam também afetados.
A Esclerose Múltipla é duas a três vezes mais frequente nas mulheres e pode ocorrer em qualquer idade, embora a maioria dos diagnósticos sejam feitos em pessoas entre os 20 e 40 anos. Calcula-se que hajam em Portugal aproximadamente 6000 doentes e cerca de 550 novos casos por ano.
O diagnóstico de Esclerose Múltipla é efetuado por neurologistas treinados com base numa história clínica sugestiva, no exame neurológico e em exames de ressonância magnética. Trata-se de uma tarefa que por vezes pode ser difícil, e deve ser feita com cautela pelo facto de outras doenças (e mesmo situações banais, sem significado clínico) poderem imitar os sintomas e os aspetos imagiológicos da Esclerose Múltipla.
Na forma mais comum de Esclerose Múltipla, os doentes têm episódios em que perdem uma função neurológica (ver de um olho, mexer um braço ou uma perna, sentir uma parte do corpo) durante alguns dias ou semanas para depois a recuperarem, mesmo sem tratamento. A estes episódios dá-se o nome de surtos.
A recuperação dos surtos é geralmente completa, mas alguns podem deixar sequelas que se vão acumulando e dando origem a incapacidade crescente.
Paralelamente, por mecanismos pouco conhecidos, os doentes podem também ir acumulando incapacidade (dificuldade em andar, problemas de memória, dificuldade em conter a urina, dor) mesmo na ausência de surtos, existindo inclusivamente alguns doentes que nunca têm surtos (formas primariamente progressivas).
O curso da doença pode ser, por isso, inicialmente enganador, dada a recuperação completa dos surtos, mas a longo prazo, sem tratamento, a doença causa grave incapacidade e mesmo uma redução da esperança de vida.
Felizmente, um diagnóstico atempado e um tratamento adequado, com um dos muitos fármacos inovadores disponíveis, permite, na maioria dos casos um controlo muito eficaz da doença e uma excelente qualidade de vida. Claro que, infelizmente, apesar destas possibilidades e por motivos vários, incluindo o terem sido diagnosticados há já muitos anos, há ainda muitos doentes que sofrem as consequências mais negativas da doença.
Entre estas destacam-se, além das incapacidades visíveis (dificuldades de locomoção, de fala ou de coordenação), os chamados sintomas invisíveis, mais frequentes e muitas vezes mais incapacitantes, mas também muitas vezes ignorados pelos profissionais: dor, formigueiros, fadiga extrema, dificuldades cognitivas, dificuldade no controlo da urina ou das fezes, disfunção sexual, alterações da visão, para dar apenas alguns exemplos.
O tecido cerebral tem uma baixa capacidade de recuperação, pelo que na Esclerose Múltipla, como noutras doenças neurológicas, é essencial um tratamento rápido e eficaz, mas também a adoção, por parte dos doentes, de estilos de vidas saudáveis e promotores da saúde do cérebro (não fumar, ter uma vida ativa e uma alimentação equilibrada). Em conjunto, estas medidas permitem controlar a doença e proporcionar aos doentes uma vida praticamente normal.
No dia 4 de Dezembro celebrámos o Dia Nacional da Pessoa com Esclerose Múltipla: o dia dos que, com maior ou menor dificuldade fazem tudo por viver as suas vidas o melhor possível.
A eles, em nome de toda a equipa, a nossa homenagem!